terça-feira, março 13, 2018

A Primavera segundo MEC

Excertos de uma crónica de 12/03/2018, de Miguel Esteves Cardoso,no jornal Público: "Aqui na Primavera".

"A Primavera começa quando lhe apetece. Não quer saber das posições dos astros. Tem tanta força que os ventos nada podem contra ela. Apenas quer saber da chuva e do sol."

"As gaivotas praticam desporto nas ventanias. deixando-se ir de asas esticadas. boiando no ar, sem gastar uma única caloria, acumulando preguiças em vez de milhas.(...)"


"Já é Primavera para os melros desde Fevereiro. Não param quietos e não se importam de ser vistos. Não só perderam a vergonha, como agradecem as testemunhas: os grandes amores são para se verem.(...)"
Ver crónica integral:
https://www.publico.pt/2018/03/12/sociedade/cronica/aqui-na-primavera-1806257

*Fotos em Março 2018, na Praia Grande e no Mucifal

segunda-feira, março 12, 2018

Capela circular de Janas e o culto de Diana

Capela Circular de S.Mamede de Janas
Extracto de “VESTÍGIOS DO CULTO DE DIANA EM PORTUGAL” da autoria do Dr. Fernando Castelo-Branco (...)Em diversas cerimónias religiosas, ainda hoje praticadas no nosso país, se podem assinalar vestígios e sobrevivências desse culto pagão. Uma superficial e rápida pesquisa revelou-nos imediatamente a existência de várias festividades religiosas em que a influência desse antigo culto é manifesta, sendo evidente que devemos estar perante casos de cristianização de cultos pagãos, neste particular, do culto de Diana. (...)"



"Uma das mais curiosas dessas festividades e que melhor evidencia a sobrevivência do culto da deusa é a de S. Mamede de Janas. Trata-se duma romaria que se realiza na ermida de S. Mamede, na povoação de Janas, a cerca de 3,5 k. ao norte de Colares, nos dias 15 e 16 de Agosto de cada ano. Os lavradores da região, e mesmo das zonas mais afastadas, como por exemplo de Torres Vedras, aparecem aí nesses dias, acompanhados do seu gado – bois, burros e cavalos – e até de animais domésticos. Chegam em geral pela manhã, dão três voltas à igreja no sentido inverso ao dos ponteiros do relógio e vão depois descansar. Antigamente entravam mesmo dentro da igreja com o gado.
À tarde fazem o pagamento das promessas e recebem então as fitas coloridas com que enfeitam o gado e o ex-voto que vão colocar junto da imagem de S. Mamede.
Estes pormenores coincidem extraordinariamente com as características do culto de Diana. Esta deusa, filha de Júpiter, recebeu de seu pai, juntamente com Febo, o domínio das florestas e dos bosques:

«Phoebe, silvarumque potens Diana,
lucidum coeli decus,……………….

(Febo, e tu Diana, rainha das Florestas, glória brilhante do céu…)
Aparece-nos como uma divindade ligada às florestas, à caça e protectora dos animais . E uma inscrição de Sagunto refere-se a

DIANAE MAXIMAE
VACCAM OVEM ALBAM PORCAM
…………………ONS…………………
................
…………………………………………
pela qual se vê que protegia também os animais ligados com ávida agrícola. A principal festa em sua honra tinha lugar nos idos de Agosto, isto é, no dia 13.(,,,)"  

"Muito significativo é ainda o facto do culto de S. Mamede, em Janas, e com as actuais características, ser deveras antigo, podendo documentar-se a sua existência em épocas recuadas. Assim um trecho da obra de D. Francisco Manuel de Melo, datada de 1657, que ainda não vimos evocada até agora a este propósito, é concludente. Escreveu o grande polígrafo seiscentista: «Porem agora, que huma Corte tão luzida, como a da nossa Lisboa; a qual não há inveja a nenhuma Christandade, vos anda à roda sempre, como gado vacum, em torno da Ermida de S. Mamede, que podeis envejar que não seja vicio?»

Temos portanto que, em pleno século XVII, o culto a S. Mamede, em Janas, era deveras semelhante ao que ainda aí se pratica nos nossos dias. E mais ainda: um documento do século XV prova-nos que nessa época era S. Mamede o patrono dos gados, especialmente vacum, e que na capela de Janas os lavradores pagavam muitas promessas pela protecção dispensada por esse Santo aos seus animais: «no termo da dicta ujlla (de Sintra) há huua ermjda do orago de sam Mamede (…) a quall ermjda he de tanta deuoçom que uem asy a ella em Romajem muyta gente do termo da dicta ujilla como dos outros lugares e termos em os quaaes que per suas deuaçoees hofereçem ally seus gaados e mujtos delles em louuor de Deus e do dicto santo por seus gaados Receberem saúde qua… quer boy ou uaqua he em seu termo o oferecem… santo nesta maneira que Recebendo saúde o dicto boy ou uaqua que os dictos seus donos se syruam delles atee os ditos gaados não serem pêra serujr e depojs do dicto tempo os darem ao dicto santo». (...)"


janas2
Capela Circular de Janas

domingo, março 11, 2018

Comemoração do 13º Aniversário da Alagamares

Decorreu ontem na Escola Profissional Alda Brandão de Vasconcelos em Colares, o jantar comemorativo dos 13 anos da Alagamares -Associação Cultural, que reuniu uma grande número de amigos.
Momentos do jantar

sexta-feira, março 09, 2018

Alagamares -Associação Cultural, 13 anos depois.

Foto de um Colóquio/Debate em Defesa das Árvores de Sintra, organizado pela Alagamares, com um painel de especialistas. O painel do colóquio era constítuido pelo Arq. Gonçalves Teles, Engº Eugénio Sequeira, da Liga para a Protecção da Natureza, Dr.Rui Brandão, da Sociedade Portuguesa de Alergologia, EngºNuno oliveira, da Parques de Sintra-Monte da Lua, e Dr.Carlos Albuquerque, da Câmara Municipal de Sintra, em 28 de Abril de 2012, na Sociedade União Sintrense.

 A Alagamares -Associação Cultural que hoje comemora o seu 13º Aniversário


 " Projecto de carolas gisado em fins de tarde nos cafés de Galamares, Alagamares se lhe decidiu chamar, por ser esse o primitivo topónimo da aldeia onde a maioria dos fundadores morava e, porque tal como o mar alagava o rio das maçãs quando este era navegável, também assim se desejou, que como a água purificadora, o conhecimento e o desafio de alargar o espírito alagassem as mentes dos que connosco abraçaram este projecto. Fizemos colóquios e passeios, oficinas artísticas e debates, convívios e conferências. Não esquecemos valores locais, em carne e em pedra. Zelámos para que um chalé arruinado revisse portentoso a luz de Sintra e o seu cheiro inebriante. Demos a conhecer e aprendemos. E, apesar do mar revolto e dos pequenos adamastores, continuamos nessa senda, por vezes quixotesca, mas que por isso mesmo nos torna cidadãos mais reconciliados connosco próprios, caminhando na Estrada e não nas bermas, nesta terra com uma serra por sentinela, milenar guardiã e larvar berço de lendas e histórias, de mouros e cristãos, visionários e viajantes, aristocratas e feiticeiros, espantados com o sempre odorífico triunfo do verde e em presépio aninhando casas, palácios, fontes e miradouros, na pretérita lembrança do Cruges e Calisto Elói, de Garrett e Zé Alfredo, de Anjos Teixeira e M.S.Lourenço, da feiticeira Llansol e de Nunes Claro, ou mesmo até do Carvalho da Pena cavalgando na serra, druida da floresta e dos lagos.(...)"
 De um texto da Alagamares

O 128º Aniversário da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Colares



Eduardo Rodrigues da Costa - 1° Comandante da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Colares - Fundada a 9 de Março de 1890 - 128 anos de História

Elementos da história dos Bombeiros Voluntários de Colares
 
 Bomba  braçal Flaud (1891)
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A bomba Flaud doada aos B. V. de Colares pelo Comandante Eduardo Rodrigues da Costa em 1891

Bomba braçal Metz (1915)
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Bomba Metz, adquirida em 1915

Abril de 1915 "Sendo necessário ir ao Porto buscar a bomba braçal encomendada à firma Augusto Soares& Irmãos, foi resolvido enviar 5 homens ao Porto os quais, ao mesmo tempo representariam a Associação na cerimónia de inauguração do monumento a Guilherme Gomes  Fernandes."
In "Cem anos fazendo o bem" de António Caruna


Outubro 1921-"Registou-se um pavoroso incêndio no Royal Hotel Belle-Vue na Praia das Maçãs, ficando o edificío praticamente destruído.
(...)
Dali a pouco, apareceram os Bombeiros de Colares com a sua bomba braçal em aflita correria. O Com. José Maria de Oliveira conseguiu que o responsável pela estação dos eléctricos do Banzão,de apelido Garcia e pai de Renato Lobo Garcia - que durante muitos anos foi funcionário da Adega Regional de Colares e um esforçado dirigente dos Bombeiros Voluntários de Almoçageme -, a transportar a bomba e os bombeiros numa vagoneta atrelada ao eléctrico.
Com autorização e até convite do sr.Garcia, o eléctrico levou não só os bombeiros e o seu material como até os populares que ali se encontravam, incluindo o nosso Fernando Serôdio."
In "Cem anos a fazer o bem" de António Caruna
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Bomba braçal Metz

Rebocadores "Sintrenses" (reedição)

Vários locais do litoral Sintrense banhado em toda a sua extensão pelo Oceano atlântico, tem sido utilizados para atribuir nomes a embarcações que ao longo do tempo tem prestado grandes serviços marítimos ao país - hoje lembramos quatro: O "Praia da Adraga", o"Praia Grande", o "Cintra"e  o "Colares"

Rebocador Praia da Adraga


Rebocador Praia Grande

Os três rebocadores de alto-mar “CINTRA, PRAIA da ADRAGA e o PRAIA GRANDE” pertencentes à Sociedade Geral do Comércio, Indústria e Transportes, fizeram estação em Ponta Delgada, S.Miguel, Açores, nos anos 60. Os gémeos “PRAIA GRANDE” e “PRAIA da ADRAGA” foram construídos em Portugal, mais precisamente em Lisboa em 1951, no estaleiro da Administração Geral do Porto de Lisboa explorado pela CUF.O primeiro ainda existirá e estava à venda na Grécia...


Rebocador Cintra

Modelo do Rebocador "Cintra" (Proprietário:Jorge Serpa)

O "Colares"
O navio de classe C “Colares” de 1.300 toneladas terá sido construído no Quebec (Canadá)em 1945(?) E nos anos 60 foi vendido á empresa TRANSFRIO, para ser transformado em navio frigorífico.
O navio Colares

Notas sobre o rebocador "Cintra"
O rebocador de alto mar Enchanter foi construido em Selby na Inglaterra em 1944 para a Marinha Inglesa. Em 1947 foi vendido para a United Towing de Hull, passando então a chamar-se Englishman. Finalmente foi vendido à Sociedade Geral passando a chamar-se Cintra. O pai de Jorge Serpa, Luiz Santos Serpa foi imediato e mais tarde comandante deste rebocador.

O Cintra era o "porta-bandeira" da frota de rebocadores da SG. Dos 3 ( os outros 2 eram o Praia da Adraga e o Praia Grande), ele era o único que era verdadeiro rebocador salvadego de alto mar. Aliás, a SG tinha um contrato com a companhia holandesa Wijsmuller, uma das mais prestigiosas companhias de salvatagem e rebocagem dos seus tempos, segundo o qual o Cintra passava um periodo do ano vinculado aos holandeses.

O Cintra com o comandante Luis Santos Serpa, fez o salvamento de um navio misto (carga e passageiros) à entrada do mar do Norte.


Agradecimentos:
A  prestimosa colaboração de Jorge Serpa, filho do comandante do rebocador Cintra

Fontes utilizadas para este post
Blogues:
Alerta 1143
Navios&Navegadores-Foto do reb.Cintra
Navios à Vista

Sites:
Navios Mercantes Portugueses-Fotos do P.Adraga,P.Grande,Colares
Bordo Livre

quarta-feira, março 07, 2018

Exposição «Agricultores e Pastores da Pré-história - Testemunhos da Região de Sintra» em Odrinhas

«Agricultores e Pastores da Pré-história - testemunhos da Região de Sintra» a designação da exposição que hoje foi inaugurada pelo Presidente da República, no Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas.
Dr.Cardim Ribeiro fez a apresentação do seu Museu, que  o Prof.Marcelo Rebelo de Sousa não sabia da existência até hoje.
Esta exposição com mais de 500 objectos que testemunham a densa ocupação humana de Sintra durante a Pré-.história, e inauguram uma nova secção expositiva do museu designada como «Claustro do Tempo».
As numerosas peças exibidas documentam quer as actividades quotidianas vivenciadas nos sítios de habitat -entre os quais assumem especial destaque os do Neolitico antigo de S.Pedro de Canaferrim e do Lapiás das Lameiras, também peças dos notáveis espólios, descobertos na Anta das Pedras da Granja, e no Monumento Pré-histórico da Praia das Maçãs, e na Tholos da Várzea de Sintra.
A exposição temporária estará patente a partir de 8 de Março
Para terminar a visita a tradicional selfie.


Exposição de Camélias e Orquídeas em Sintra

O terreiro do Palácio Nacional de Sintra vai receber, no fim de semana de 10 e 11 de março, a “Exposição de Camélias e Orquídeas”, organizada pela Parques de Sintra, em colaboração com a Associação Portuguesa de Camélias (APC) e o Clube dos Orquidófilos de Portugal (COP). A mostra tem entrada gratuita e decorre anualmente para promover o valor botânico associado às camélias e orquídeas em Sintra.

Este é o oitavo ano em que decorre a exposição de camélias em Sintra e o quarto ano de exposição de orquídeas.

Programa completo e mais informações em www.parquesdesintra.pt/noticias/palacio-nacional-de-sintra-recebe-exposicao-de-camelias-e-orquideas/


*Fotos da Exposição de Camélias no Palácio da Vila de Sintra em 2013

 Camélias2013 Camelia2013Blogue2 Camelias2013Blogue7

terça-feira, março 06, 2018

O jantar dos aspirantes da corveta alemã «Charlotte» no Hotel Netto (reedição)

Legenda-No regresso da Pena(clicar na gravura para ampliar)

A visita dos aspirantes da corveta alemã «Charlotte» a Sintra em 1905
"– Cintra atrae todos os estranjeiros que nos visitam e é certo que, pelos seus naturaes encantos pela belleza dos seus arvoredos, pelo pittoresco dos seus panoramas, pela surpresa das suas vistas, tem fama universal. Os aspirantes da corveta allemã «Charlotte» em numero de sessenta, vestindo as suas fardas brancas foram visitar a soberba e gracil villa em terça-feira 22 de Agosto, tendo janttado no Hotel Netto e indo em digressão até á Pena.

Era d´um bello efeito a caravana dos touristes que destacavam com os seus uniformes por entre a verdura, montados em burros e seguindo alguns em carruagens, conservando-se sempre no maior enthusiasmo, trocando impressões com uma jovialidade meridional, dados os seus espíritos positivos de allemães, por essa grandeza de panoramas, pela suavidade da aragem, pelo communicativo bem estar que vem d’ essas arvores e d´esses penhascos colliocados ali pela natureza, d´uma surprehendente maneira que encanta a visita e delicia o espírito.
O jantar correu animadissimo, retirando os aspirantes da «Charlotte» pela noite e saindo a corveta no dia seguinte, tendo havido dois dias antes da partida um jantar, a bordo do qual assistiu grande numero de pessoas da colonia allemã."

Illustração Portugueza de 28 de Agosto de 1905

Legenda- S.A.R. o principe de Hessen, official alemão, à volta da Pena com os aspirantes
-Fotos da"Illustração Portugueza" de 4 de Setembro de 1905 (clicar na foto para ampliar)
Notas sobre antigos hotéis de Sintra:
Dois antigos hotéis de Sintra são referenciados nestes artigos da "Illustração Portugueza":

O Grand Hotel Costa, ao fundo na 1ª gravura e que pertenceu a José Pedro Costa , já não existe há muito tempo,foi na época um hotel de referência na Vila de Sintra . O edifício onde existiu este antigo hotel, é ocupado desde 1982 pelos serviços de Turismo de Sintra.

O Hotel Netto, local preferido por Ferreira de Castro, para os seus tempos de escrita. Edifício infelizmente votado ao abandono ao longo dos anos, encontra-se agora, após ser vendido em hasta pública, pelo mais recente proprietário (CMS), com projecto de reconstrução(?). Imóvel bastante degradado no local turístico mais visitado de uma Sintra, elevada a Paisagem Cultural da Humanidade pelo comité da UNESCO em 1995.

Postal antigo Publicidade da época (sem data)

 O edifício onde existiu este antigo hotel, é ocupado desde 1982 pelos serviços de Turismo de Sintra.A publicidade da época denota a qualidade dos serviços do extinto hotel.

Ao fundo o Grand Hotel Costa (Postal ilustrado de 1928)
Preçário dos hotéis de Sintra de 1907
                                                                   
In "Guia do viajante da Empresa Nacional de Navegação" de 1907

Posts relacionados:
http://riodasmacas.blogspot.pt/2013/11/sobre-o-hotel-netto-da-vila-velha-dxe.html
http://riodasmacas.blogspot.pt/2015/10/cms-coloca-o-hotel-netto-em-hasta.html

http://riodasmacas.blogspot.pt/2018/03/folhetim-hotel-netto-novo-episodio-ver_2.html

segunda-feira, março 05, 2018

Exposição "Agricultores e Pastores da Pré-História" no Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas

A exposição "Agricultores e Pastores da Pré-História - Testemunhos da Região de Sintra" abre ao público na próxima quinta-feira, dia 8 de Março. 

domingo, março 04, 2018

Visita de Marguerite Yourcenar a Sintra (reedição)


SeteaisBlogue2011


"Minha senhora,

Não tenho por hábito escrever prefácios ou introduções. É o que vos explicará a minha hesitação em fazê-lo para o texto que se propõe publicar na RAIZ E UTOPIA. E porquê? Um texto diz o que tem a dizer, a menos que seja um falhanço, e arriscamo-nos a diluir ou a sobrecarregar a mensagem adicionando-lhe uma explicação em notas.

Que fazer, então? Talvez começar por lembrar que estas páginas foram escritas no vosso país, Portugal, mais precisamente em Sintra. O que escrevemos raramente guarda a marca do lugar onde o escrevemos, a menos que o objetivo seja descrever esse lugar ou se trate de literatura de viagem.

Mas o autor sabe: o texto mantém para ele o odor e a cor do lugar onde foi criado. Nunca  poderei relê-lo sem rever, da janela do meu quarto em Seteais, as nuvens a passar e repassar no alto das colinas, cobrindo e descobrindo o estranho e absurdo castelo de estilo pseudo-manuelino-germânico, oferecido por um príncipe alemão, no Século XIX,  que teve porém a sensibilidade de reconhecer um lugar de encantamento e magia.

A exuberância vegetal e a extravagância humana dominavam, vistas da minha janela, o primeiro plano do requintado pátio e dos pórticos de Seteais, como um cenário de Wagner sobreposto a um cenário de Mozart. Foi ali, por acaso, nesse quartinho levemente rococó que escrevi estas páginas dedicadas ao sofrimento animal – que não é mais que uma das piores formas do sofrimento universal. Levantava a cabeça, de tempos a tempos, para ver se o nevoeiro, no seu jogo, não tinha levado o castelo de Drácula. Mas não: lá continuava e pelo anoitecer acendia o seu olho vermelho. O Mal, que faz do homem o carrasco das outras espécies e também da sua, é, receio bem, igualmente imutável.

Mas não se passam cinco dias num lugar qualquer apenas a escrever um ensaio, mesmo quando se trata de um tema que nos toca o coração.

Fica-se exposto, como sempre, a essa mistura de pequenas e grandes alegrias, de pequenos e grandes males, de leves preocupações e ansiedades profundas que enchem cada dia das nossas vidas. Os meus pulmões e os meus brônquios (tinha chegado doente), indispostos por essas neblinas e chuva caprichosa, desempenhavam o seu papel, é preciso dizê-lo, tal como o voo dos pombos-torcaz e o perfume das glicínias de Seteais. Os jogos fascinantes do tempo também interferiam nisso. No livro de visitas do hotel, encontrei a marca de uma das minhas primeiras passagens, há cerca de vinte anos, com uma amiga já falecida. No livro, ela expressava o seu entusiasmo por este belo lugar. Quantas coisas mudaram, entretanto, em Portugal e em mim! E quanto, no fundo, ficou igual. Nós formamo-nos, deformamo-nos, reformamo-nos com o pano de fundo dos nossos sempiternos instintos, dos nossos desejos, das nossas vontades, das nossas fraquezas e das nossas forças, como as nuvens sobre a serra de Sintra”.


Marguerite Yourcenar

(RAIZ E UTOPIA - Número Triplo, 17/18/19 - 1981)
Tradução de Maria Cristina Guerra

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 Palácio da Pena envolto nas brumas do Monte da Lua
Texto original ler aqui:
http://blogteste-pmacieira.blogspot.pt/2016/08/texto-original-de-marguerite-yourcenar.html
Créditos:
-Agradecimentos a Emilia Reis pela disponibilização do texto

Informação adicional de Emilia Reis:
"A carta de Marguerite Yourcenar. Foi enviada a Helena Vaz da Silva, então directora da revista Raiz e Utopia, em Abril de 1981, e respondia a um pedido da jornalista para que escrevesse um ‘prefácio’ introdutório ao texto, para publicação na revista, da Conferência que a escritora tinha lido na Fundação Calouste Gulbenkian, em 8 de Abril, portanto dias antes, sobre “A Declaração dos Direitos do Animal” - admirável texto ainda tão actual, aquele a que Marguerite Yourcenar se refere na sua carta, escrito no Hotel de Seteais, e que HVS resume assim: “… sobre a unidade do universo, a responsabilidade de todos por tudo e a premência de afinarmos a qualidade da nossa compaixão começando pelos mais pequenos de entre os animais e as plantas”. Este texto, tal como a carta, foi publicado na revista Raiz e Utopia nºs.17/18/19."

sábado, março 03, 2018

Porque hoje é Sábado...

ZimborioPPena1930blogue

Apeeie-me no Parque, mandei  esperar o cocheiro, e subi com um grupo de turistas a repetir a visita ao castelo.
(...)
Saimos por fim lá em cima, no zimbório e eu respirei fundo, reanimado. Ah, aquilo sim, aquilo é que era realeza, e da sempre-viva! Dedos apontados, os turistas esburacavam a tela da paisagem: Mafra, o Cabo da Roca, a barra do Tejo...
(...)
Nisto, resolvi trepar até ao cimo do zimbório, pela escadinha exterior, que é de dar vertigens. O cicerone opôs-se, declarou que não assumia a responsabilidade. Os outros visitantes ofereceram-me conselhos sensatos, que era um perigo, um pé em falso e zás...
Subi assim mesmo, quase de gatas.Era preciso ter unhas.E já não era a primeira vez.
Cheguei quase ao alto, sentei-me num degrau e fiquei  só.Ficar só, aqui não é ficar desacompanhado: é ficar recolhido, mergulhando raízes em alguma coisa mais do que o panorama que realmente me rodeava.(...)

Excerto do conto. "Regresso à cúpula da Pena" de José Rodrigues Miguéis

Foto: No zimbório do Palácio da Pena. em Setembro de 1930

sexta-feira, março 02, 2018

Folhetim Hotel Netto -novo episódio (ver as estrelas a aumentar)

Novo episódio (2018)
Os trabalhos terão parado devido a um “desentendimento” entre o promotor e o empreiteiro. Com um novo responsável pela recuperação do hotel, a autarquia garante que as obras já recomeçaram - escreve Cristiana Faria Moreira, no jornal Público em 28/02/2018.


https://www.publico.pt/2018/02/27/local/noticia/depois-de-meses-paradas-camara-diz-que-obras-no-hotel-netto-ja-recomecaram-1804553

 Iniciou-se (?) mais um episódio da saga "Hotel Netto" e segundo descreve o PÚBLICO: "apesar da grua e dois andaimes ao que o PÚBLICO apurou, a recuperação do edifício está suspensa desde Junho" e adianta que questionada a CMS a "autarquia garante estarem a ser cumpridos os prazos legais da empreitada. Nos termos da adjudicação, em Julho de 2016, o promotor dispõe de 30 meses para concluir o hotel. Após emissão do alvará de construção ou licenciamento da operação urbanística"

 Agora o actual projecto prevê segundo o PÚBLICO "a instalação de uma unidade hoteleira com 34 quartos".Inicialmente um hostal depois um hotel, que seria de quatro estrelas, "será agora de uma unidade de cinco estrelas," segundo informação da CMS...

*Foto anterior às intervenções 20/10/2015
Resumo dos episódios anteriores
O presidente da autarquia, Basílio Horta, revelou à Lusa  (2015) que a proposta relativa ao degradado Hotel Netto, a submeter ao executivo e à assembleia municipal, "passa pela venda do imóvel, com projecto aprovado, para que quem comprar, se quiser, comece a construir no dia seguinte"

A proposta com facilidades...
O montante base da proposta será de um milhão de euros, que se for pago a pronto terá um desconto de 10% do valor, ou seja, ficará por 900.000 euros, explicou o autarca.

"Se não for a pronto, [o comprador] tem três momentos para pagar: 20% com a adjudicação, 30% com a abertura das portas, e depois duas fases de 25%, aos seis meses e após um ano, com a assinatura da escritura no fim", adiantou  ainda Basílio Horta,  que a escritura "pode ser feita antes se houver garantia bancária do valor em dívida".
A aquisição foi aprovada pelo PS, PSD e CDU, com a oposição dos vereadores da lista de Marco Almeida, mas o presidente da autarquia justificou a aquisição por ser "um bom negócio" e dar um sinal do empenho na câmara na reabilitação do centro histórico.
"A proposta acaba por preencher requisitos essenciais, nomeadamente a sua integração arquitectónica na malha histórica de Sintra", afirmou hoje à Lusa o vereador Pedro Ventura (CDU).
Fonte:


O estado do interior  do Hotel Netto  em 20/02/2015- local  eleito por Ferreira de Castro

Foto em 20/02/2015

Um pequeno apontamento em 3 episódios, sobre um antigo hotel de Sintra.

Episódio 1(A ultrapassagem)
No início de  2013, constou que a Parque de Sintra Monte da Lua (PSML), teria intenção de comprar o antigo Hotel Netto em Sintra. Abordando o assunto mais tarde, com um responsável da PSML – foi-me respondido que a proposta tinha sido feita, mas os acionistas não teriam aceitado.
*A CMS é acionista da PSML
No mês de Novembro de 2013, surgiu a notícia que a PSML, teria comprado o Hotel Netto, para instalar um Hostel.


No mesmo mês e após a   Assembleia Municipal  da CMS, foi deliberado utilizar o direito de preferência e comprar o Hotel Netto para  a instalação de um Hostal!!!

http://riodasmacas.blogspot.pt/2013/11/o-estranho-caso-do-hotel-netto.html


Episódio 2 (A conformidade)
Notícia no "Diário de Notícias"
20 Dezembro 2013

"O Tribunal de Contas (TC) declarou a conformidade da aquisição das ruínas do Hotel Netto por parte do município de Sintra, disse hoje à agência Lusa o presidente da Câmara, Basílio Horta.

"A aquisição do Hotel Netto revela que a Câmara Municipal vai assumir as suas responsabilidades na requalificação do centro histórico da vila de Sintra e em todo o concelho", disse o autarca à agência Lusa.
Basílio Horta acrescentou que o município pretende instalar um hostel naquele edifício.
A Câmara e a Assembleia Municipal aprovaram a aquisição do imóvel.
A declaração de conformidade é o ato em que se consubstancia juridicamente a fiscalização prévia do Tribunal de Contas, inserida nos seus poderes de controlo financeiro."
Episódio 3 (a fachada?)
No Jornal da Região
"Basílio Horta reconhece que a recuperação do edifício está num impasse pelos seus elevados custos"

No Blog Sintra Deambulada, escreve João Rodil:
Outubro 28 de Outubro 2014

 "A Câmara adquiriu o Hotel Netto e agora diz-se que o problema é o dinheiro que custa manter a sua fachada! Mas poderia ser de modo diferente? Não se sabia, de um saber obrigatório, que a fachada era para manter? É a Câmara que deve obrigar a manter todas as fachadas e, obviamente, obrigar-se a si própria. (...)"

quinta-feira, março 01, 2018

Quadro do restaurante de Júlio Grego na Praia das Maçãs

Uma  foto de uma pintura de Adriano Costa, que não conheciamos e que  nos chegou às mãos, por gentileza de João Pedro Norton. Pintura que permite actualizar um post  do blogue, de 2015, sobre o restaurante de Júlio Grego - local escolhido por José Malhoa  para pintar  em 1926, o famoso óleo sobre madeira,  uma imagem forte daquele local e  da Praia das Maçãs, ao longo do tempo.

*Adriano Costa nasceu em  em 20 de Outubro de 1890 e viveu em Sintra

Restaurante Flôr da Praia de Júlio Grego

  José Malhoa. «O Caminho do Grego (Praia das Maçãs)», 1922. Óleo sobre tela, 23x32. Colecção particular.

 



O Restaurante do Grego na Praia das Maçãs

"O semanário Correio de Sintra, de  2 de Abril de 1899, noticiava:

" sr, Júlio Grego, laborioso e activo proprietário do novo Restaurante Flôr da Praia das Maçãs, instalado  na casa que pertence ao nosso amigo Sr. Matias del  Campo, vai dotá-lo com novos melhoramentos e já concluiu uns frescos e aprazíveis caramanchões, donde  se disfruta vista sobre o mar. Já um mês antes desta notícia se anunciava que o estabelecimento do Grego tinha bons terraços, abrigo para carros e gado, aceio e boa cozinha."

Também José Alfredo da Costa Azevedo, relata nas suas obras aspectos do restaurante do Grego:
"Foi neste restaurante que se serviu o primeiro banquete que houve na Praia das Maçãs - um almoço de homenagem ao Visconde de Tojal, João Vicente de Oliveira, moço fidalgo que residiu em S.Pedro de Sintra e faleceu em Lisboa com 74 anos, em 16 de Maio de 1939. Entre os muitos convivas, estavam elementos da família Cabournac, ainda hoje muito considerada em Sintra, e o nosso famoso padre António  Matias del Campo.
O interior da esplanada do Grego, debruçada sobre a praia, plena  de mesas sempre cheia de clientes , foi motivo  para uma tela do grande pintor José Malhoa."

José Malhoa. «À Beira-Mar (Praia das Maçãs)», c.1926.Óleo s/ madeira, 69x87. MNAC-MChiado, inv.584, pintado no Restaurante Flôr da Praia,  e cujo cenário é o mesmo da foto da filha de Júlio Grego, o que não deixa qualquer dúvida do local onde José Malhoa pintou este óleo s/ madeira, que se encontra exposto no Museu do Chiado



Foto de Elisa de Jesus Grego, no restaurante onde José Malhoa pintou o quadro a óleo sobre madeira.(publicada na Ilustração Portuguesa nº340 de 26 de Agosto de 1912).


Actualmente, o que resta do restaurante Flôr da Praia, foto de 2014, mas que se mantém actual