sábado, fevereiro 27, 2021

Porque hoje é Sábado...



Maldades modernas

 Na minha terra, os velhos têm apanhado choques violentos. A libra valeu toda a vida vinte xelins e o xelim doze dinheiros, De um dia de para  o outro,  o xelim desapareceu e a libra passou a ser dividida em fracções que ainda se chamam dinheiros, mas , um centavo de libra e não um duzentos-e-quarentavo.

Com as medidas de peso e capacidade aconteceu coisa parecida: havia libras e pintos divididos em onças. Agora há quilos e litros com as sua fracções decimais. Algumas lojas passaram a vender ovos e flores às dezenas e não às dúzias. Há planos para acabar com a milha, a jarda o pé e a polegada. E já esteve mais longe a condução pela direita.

Contava eu eu estas coisas aos meus amigos de Almoçageme, velhos como eu, sentados no murete do largo uma tarde destas. Todos se queixam das mudanças em Portugal nos últimos anos, desde a diminuição do tamanho das queijadas ao uso do rimmel pelas netas, e atribuem-nas de uma maneira geral aos comunistas. Nisto da culpa dos comunistas a experiência ensinou-me o exemplo a seguir é «se não foste tu, foi o teu pai» e respectivas consequências.

Para conspiração, conspiração e meia: uma teoria que me pede contas dos males do mundo, a mim A.B.Kotter da Beldroega, respeitador das leis e incapaz de fazer mal a uma mosca, porque convencionou que eu sou «burguês» e aos «burgueses» se pedem essas contas, convida-me a pagar na mesma moeda aos seus protagonistas. Por isso desligo os outros velhos, embora evidentemente, não os acicate, pois tal seria uma ingerência inadmissível na politica deste encantador país.

 "Bilhetes de Colares de A.B.Kotter"-heterónimo do Embaixador José Cutileiro:


Post relacionado:

https://riodasmacas.blogspot.com/2020/05/bilhetes-de-colares-de-jose-cutileiro.html

quarta-feira, fevereiro 24, 2021

Visita de Marguerite Yourcenar a Sintra - reedição


SeteaisBlogue2011


"Minha senhora,

Não tenho por hábito escrever prefácios ou introduções. É o que vos explicará a minha hesitação em fazê-lo para o texto que se propõe publicar na RAIZ E UTOPIA. E porquê? Um texto diz o que tem a dizer, a menos que seja um falhanço, e arriscamo-nos a diluir ou a sobrecarregar a mensagem adicionando-lhe uma explicação em notas.

Que fazer, então? Talvez começar por lembrar que estas páginas foram escritas no vosso país, Portugal, mais precisamente em Sintra. O que escrevemos raramente guarda a marca do lugar onde o escrevemos, a menos que o objetivo seja descrever esse lugar ou se trate de literatura de viagem.

Mas o autor sabe: o texto mantém para ele o odor e a cor do lugar onde foi criado. Nunca  poderei relê-lo sem rever, da janela do meu quarto em Seteais, as nuvens a passar e repassar no alto das colinas, cobrindo e descobrindo o estranho e absurdo castelo de estilo pseudo-manuelino-germânico, oferecido por um príncipe alemão, no Século XIX,  que teve porém a sensibilidade de reconhecer um lugar de encantamento e magia.

A exuberância vegetal e a extravagância humana dominavam, vistas da minha janela, o primeiro plano do requintado pátio e dos pórticos de Seteais, como um cenário de Wagner sobreposto a um cenário de Mozart. Foi ali, por acaso, nesse quartinho levemente rococó que escrevi estas páginas dedicadas ao sofrimento animal – que não é mais que uma das piores formas do sofrimento universal. Levantava a cabeça, de tempos a tempos, para ver se o nevoeiro, no seu jogo, não tinha levado o castelo de Drácula. Mas não: lá continuava e pelo anoitecer acendia o seu olho vermelho. O Mal, que faz do homem o carrasco das outras espécies e também da sua, é, receio bem, igualmente imutável.

Mas não se passam cinco dias num lugar qualquer apenas a escrever um ensaio, mesmo quando se trata de um tema que nos toca o coração.

Fica-se exposto, como sempre, a essa mistura de pequenas e grandes alegrias, de pequenos e grandes males, de leves preocupações e ansiedades profundas que enchem cada dia das nossas vidas. Os meus pulmões e os meus brônquios (tinha chegado doente), indispostos por essas neblinas e chuva caprichosa, desempenhavam o seu papel, é preciso dizê-lo, tal como o voo dos pombos-torcaz e o perfume das glicínias de Seteais. Os jogos fascinantes do tempo também interferiam nisso. No livro de visitas do hotel, encontrei a marca de uma das minhas primeiras passagens, há cerca de vinte anos, com uma amiga já falecida. No livro, ela expressava o seu entusiasmo por este belo lugar. Quantas coisas mudaram, entretanto, em Portugal e em mim! E quanto, no fundo, ficou igual. Nós formamo-nos, deformamo-nos, reformamo-nos com o pano de fundo dos nossos sempiternos instintos, dos nossos desejos, das nossas vontades, das nossas fraquezas e das nossas forças, como as nuvens sobre a serra de Sintra”.


Marguerite Yourcenar

(RAIZ E UTOPIA - Número Triplo, 17/18/19 - 1981)
Tradução de Maria Cristina Guerra

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 Palácio da Pena envolto nas brumas do Monte da Lua
Texto original ler aqui:
http://blogteste-pmacieira.blogspot.pt/2016/08/texto-original-de-marguerite-yourcenar.html
Créditos:
-Agradecimentos a Emilia Reis pela disponibilização do texto

Informação adicional de Emilia Reis:
"A carta de Marguerite Yourcenar. Foi enviada a Helena Vaz da Silva, então directora da revista Raiz e Utopia, em Abril de 1981, e respondia a um pedido da jornalista para que escrevesse um ‘prefácio’ introdutório ao texto, para publicação na revista, da Conferência que a escritora tinha lido na Fundação Calouste Gulbenkian, em 8 de Abril, portanto dias antes, sobre “A Declaração dos Direitos do Animal” - admirável texto ainda tão actual, aquele a que Marguerite Yourcenar se refere na sua carta, escrito no Hotel de Seteais, e que HVS resume assim: “… sobre a unidade do universo, a responsabilidade de todos por tudo e a premência de afinarmos a qualidade da nossa compaixão começando pelos mais pequenos de entre os animais e as plantas”. Este texto, tal como a carta, foi publicado na revista Raiz e Utopia nºs.17/18/19."

quarta-feira, fevereiro 17, 2021

Antigos comboios construídos pela Sorefame nos anos 60 voltam a circular na linha de Sintra





Segundo o Público, “duas UTE (Unidades Triplas Eléctricas), datadas dos anos 60 e que saíram de serviço há 20 anos, vão voltar aos carris na linha de Sintra, mas agora como comboios históricos, destinados essencialmente aos turistas que visitam a Vila [Sintra] e em viagens directas (sem paragens) desde o Rossio”.






segunda-feira, fevereiro 15, 2021

A inauguração da carreira aérea entre Sintra e Londres em 1936 - reedição

*Adapt.de reportagem do "Notícias Magazine" de 27/1/2018

A 3 de Fevereiro de 1936, um pequeno avião não pôde descolar do aeródromo de Sintra para Croydon, a sul de Londres, em resultado de os pneus do trem de aterragem se afundarem na lama da pista, ainda muito encharcada pelas últimas chuvas.

"Ontem de manhã [3 de fevereiro] estava tudo preparado para a descolagem do trimotor Lisboa que, conforme foi  noticiádo, ia inaugurar as carreiras entre Lisboa e Londres, exploradas pela Crilly Airways", contava o Diário de Notícias, atento às manobras do piloto.


Foi só a 4 de fevereiro que se fez história, com a partida do Lisboa a avançar, finalmente, este passo na aviação comercial.


«Às 8h30, os três motores do aparelho começaram a funcionar. Passado o tempo indispensável para “aquecer” e depois de consultado o oficial de serviço, sr. tenente Costa Macedo, acerca do melhor piso da pista, o Lisboa apontou em direção ao centro do terreno e pronto se elevou no espaço, efetuando uma descolagem impecável», relatava ainda o DN.
TAP
Fundada em 1945 (chamava‑se Secção de Transportes Aéreos), a TAP começaria a transportar passageiros regularmente para Londres em 1949.

Créditos: Reportagem (Texto e fotos) do Notícias Magazine
Texto Ana Pago | Fotografia Arquivo DN

quinta-feira, fevereiro 11, 2021

Monocarril Larmanjat chegou a Sintra em 1873

*Mary G. Santa, "Los Primeros Trenes que Corrieron por Europa Occidental". 

Cerimónia de inauguração da linha do comboio Larmanjat até Sintra, em Portugal, em 2 de Julho de 1873.

 Comboio monocarril Larmanjat

"O Larmanjat foi um sistema ferroviário monocarril desenvolvido pelo engenheiro francês Jean Larmanjat, e que foi aplicado em três linhas em Portugal. Duas destas linhas eram para serviço comum de passageiros e mercadorias, e ligavam a cidade de Lisboa a Torres Vedras e a Sintra,[1] enqunto que a terceira linha só serviu para experiências, e unia o Arco do Cego ao Lumiar, dentro de Lisboa.[2] A linha experimental foi inaugurada em 31 de Janeiro de 1870,[3] enquanto que a linha até Sintra entrou ao serviço em 5 de Julho de 1873,[2] e a de Torres Vedras em 6 de Setembro do mesmo ano.[4] As duas linhas principais totalizavam cerca de 50 milhas (80 km).[5] Depois de alguns anos de funcionamento marcados por vários problemas, o sistema foi definitivamente encerrado com a falência da companhia exploradora em 1877."

Winkipédia[4]


Estação Central das Portas do Rego.
Transporte colectivo ferroviário, circulou na Estrada de Benfica de 1873 a 1877 na ligação à vila de Sintra através da antiga Estrada Real de Lisboa/Sintra.
(Livro "O Incrível Comboio Larmanjat)

sábado, fevereiro 06, 2021

Porque hoje é Sábado...

 

Alouette III


  Esquadra 552 celebrou 42 anos 


"A história desta Esquadra começa com a chegada dos Alouette III em 1963 à Esquadra 94 da Base Aérea nº9, em Luanda. Em Portugal Continental, os AL III foram colocados na Esq. 33 da Base Aérea nº3 (Tancos), na Esq. 551 da Base Aérea nº6 (Montijo) e na Esq. 111 da Base Aérea nº3 (Tancos). A 24 de novembro de 1978 a Esq.33 viu o seu nome alterado para Esquadra 552, designação que ainda ostenta. A 30 de setembro de 1986 recebe os helicópteros da então extinta Esq. 551 e em 1993 absorve a Esq. 111, tornando-se a fiel depositária dos valores e tradições de todas as unidades anteriores que operaram o AL III. A 16 de novembro de 1993, a Esquadra 552 deixa Tancos, rumando a Beja (Base Aérea nº11) onde se manteve, sendo substituídos a 17 de junho de 2020 pelo AW119MKII "KOALA". 

Texto FAP