
"Em volta de Lisboa, n'um raio de alguns kilometros, a
paizagem é desoladora e triste, quasi funebre. A terra avermelhada
dir-se-hia colorida por um soro de sangue e, pobre, mal fecunda, miseros hortejos e couvaes, algum talhão de vinha raquitica, um ou outro milheiral de milhos pequenos como dedos e
jardimsinhos minusculos aparados á
thesoura e com tres ou quatro pés de roseira de trepar.
Poucas arvores: as arvores impedem, no dizer dos lavradores d'aqui, as culturas. Quando muito, a não ser nas tapadas e
mattas reaes, n'uma ou noutra quinta de vivenda ou parques aristocratas, sem dúvida em consideração da sua excessiva magreza, meia dúzia de pinheiros apenas, por entre as agulhas das
quaes se descobre, longe um filete de mar de um azul tão
pallido e doce que direis pertencer a algum
golpho grego.
(...)
Depois quando menos se espera e nada prepara para a mutação que
vae aperar-se,Cintra, Cintra ressaltando n'um forte destaque de agua forte com o
pittoresco recorte das suas penedias, os seus arvoredos densos, a
architectura mourisca e do seu
castello e palacio, e as
mysteriosas sombras que se adivinham nos seus parques deliciosos, no
paraizo dos seus jardins embalsamados de rosas, nas suas florestas de camelias por onde gorgorojante e louca a agua escorre cantando
epitalamios de boda. Cintra é o trecho de montanha mais lindo que
ha ao sul do
paiz."
Imagens e excerto do texto (ortografia e acentuação conforme o original)
Publicado na revista "Branco e Preto" nº33 de 15 de Novembro de 1896
Sublinhados da autoria do Blogue
Comentários
A descrição da envolvente de Sintra no texto, é aterradora -nos nossos dias também o é por excesso de betão.
Em 1896 este País era de facto muito diferente e Sintra teve a sorte de ser um local escolhido pela nobreza facto que nos fez chegar um rico legado, tanto histórico como patrimonial que teremos que (ajudar)preservar a todo o custo.
Abraços