O Segredo do último ferreiro do Mucifal

«Traz engatilhado, na memória 40 versos de pé-mais-que-quebrado que há-de recitar, inteirinhos , cantaroladamente, com o indicador e anelar meio estendidos a marcarem o compasso, antes de responder à pergunta de apresentação “O senhor é o ferreiro?” lá começou ele: “Por usar fato de ganga e boné/Todos olham para mim com certo desdenho/Mas o fato de ganga ainda é/Para quem o enverga bem”A gente entreolhou-se e ele foi seguindo a recitação: “...sou ferreiro, malho ferro/Mora à borda do rio/Não há coisa que mais custe/ Que malhar o ferro frio”.»

«È uma oficina pequena, onde a dimensão do fole domina o compartimento.O chão se não é de terra batida, está pelo menos, recoberto de poeiras e limalhas acamadas pelos anos
A fornalha é pouco maior do que uma lareira, mas ao sopro do fole, é ai que a caruma seca pega fogo vivo ao carvão mineral.»
e era ele que recitava : “Ainda bem não amanhecer/A forja mando acender/ Somente para fazer/ as obras que me aparecem”... escreveu Oscar Mascarenhas.
O segredo de Fernando Carioca
Relata o D.N. « tem orgulho na rijeza do ferro que sai das suas mãos.Pegou num dos dentes de um sachão e zurziu o outro num lancil, fazendo saltar lascas da pedra, exibindo a ferida branca que o metal acabou por produzir na rocha: Vê? Isto é o que o meu tempero consegue fazer. O ferro fica rijo e não parte.
Voltou-se para a forja e veio de lá com dois objectos nas mãos uma lima grossa e ..., um pedaço de corno de carneiro.” meu tempero é este.” afiançou, sorrindo, já habituado ao espanto dos seus interlocutores. “Até esteve cá um mexicano que me disse.” Ah você tempera com óleo de corno ...”
A fornalha já estava acesa, o escopro ficou ao rubro em pouco tempo.Fernando Carioca trouxe, preso por uma tenaz, para a bigorna, martelou-o fortemente até o afiar a contento da vista e, já com o ferro enegrecido, passou-lhe demorada e fortemente com a base do corno de carneiro.logo fumegou um cheiro característico... a corno queimado.repetiu a operação no outro gume do escopro. E explica que “ o melhor é o corno de carneiro negro que deita mais óleo.” O óleo é tão- sómente o próprio corno derretido pelo calor.»
Aqui fica uma singela homenagem a um homem que durante muitos anos ajudou muita gente do Mucifal e seus arredores com a sua arte , para os pedidos mais variados desde fabrico de ferramentas para a lavoura até afiar canivetes.E que está presente ainda hoje na memória do Mucifal.
Fontes: Entrevista e foto de Marco Borga ,aut. Oscar Mascarenhas D.N. 9 de Agosto 1992
Entrevistas no local
Comentários
ferreiro do Mucifal, que conheci e com quem tive o prazer de manter breves conversas enquanto tomava o café no Parreirinha.
É pena ninguem deitar a mão àquelas ruínas da oficina e ninguém se lembrar do nome dele para uma rua, um caminho, uma travessa...
Com que memória ficarão os mais novos?...
saloio