domingo, julho 19, 2009

A Praia de Nuno Lobo Antunes

A Praia das Maçãs "era a sala de espectáculos"
NunoLobolAntunesPMaças
(...) A praia era a sala de espectáculos: havia fantoches de cabeça de pau que, com voz esganiçada, reproduziam rixas de bêbados, vendedores de línguas-da-sogra em quantidades volúveis, de acordo com a tômbola que encimava a lata, num casino sem néon para apostadores de calções. Aparecia o Catitinha e o seu apito, espécie de Pai natal do Verão, que distribuía apertos de mão, numa antecipação notável dos politicos de hoje. E batatas fritas da Tia Maria em pacotes sem rótulo, e bolas-de-berlim em cestos de vime cobertos de alvuras de linho. Nesse tempo, a bola-de-berlim não tinha creme. E havia também o cabo-do-mar, imponente na sua farda, marinheiro inútil, em doca seca. E distinções de classe, porque a praia , ao domingo era para o povo. E toldos às riscas que navegavam à bolina de acordo com o vento, e barracas com pontes levadiças que se baixavam e se transformavam em casulos onde meninas, dentro se despiam para sairem borboletas, E havia amores, os primeiros, onde não mais se retorna, porque o coração deixou de ser o mesmo. Praia das Maçãs sem macieiras, habitada pela minha infância, bichos de areia e jogo do prego, aparece na solidão da velhice, para me dar, de novo, desbotada, a ilusão da felicidade.

Depoimento recolhido por Teresa Campos
Revista Visão nº853-9a 15 de Julho de 2009

6 comentários:

Prosas Vadias disse...

A minha área é precisamente a da pesquisa histórica associada ao turismo balnear e às suas memórias antes do turismo de massas ter inavdido o nosso litoral. Este texto de N.L.A. é delicioso. Embora existam muitos, desde incógnitos a, por exemplo, Vitorino Nemésio. Esta é parte da memória destes locais que convém preservar para que a identidade e memória não se percam. São as nossas estâncias balneares com identidade que ganham, quando preservam os seus centros, modernizando, mas abominando o camartelo e o desleixo do mau- gosto.

Abraço

pedro macieira disse...

Carlos Freitas,
Aqui por estes lados as zonas balneares tradicionais conservam (ainda e felizmente)a sua identidade, talvez porque estão em área protegida, talvez pela sua localização geográfica.

É também pela manutenção da identidade e do próprio ambiente cultural, que tenho denunciado o que se tem passado nos últimos dois anos com o eléctrico que liga(va) Sintra à Praia das Maçãs, um museu vivo que tem que que ser preservado a todo o custo.

Um abraço
Pedro Macieira

Anónimo disse...

Boa tarde Prezado Pedro
Informo que segundo uma fonte de confiança, o eléctrico voltará à Praia ainda no mês de Agosto. As obras deverão iniciar-se antes do final de Julho, para já atacando os pontos mais criticos por forma a poder o elétrico circular novamente.
Cumprimentos

pedro macieira disse...

Caro anónimo,

A informação que aqui deixou a ser concretizada, é muito positiva. E aguardo com toda a expectativa o dia do início das obras de recuperação da via.
Um abraço

Anónimo disse...

recordo-me do Sabino, Fortunato, bolas da Dona Luisa, do Sr Adão. Parece um bocado de folclore no texto, ou eu nao sou tão velho assim

pedro macieira disse...

Caro anónimo,
O autor deste texto, Nuno Lobo Antunes, nasceu em 1954, possivelmente a descrição feita da Praia das Maçãs corresponde a essa altura.
Um abraço