sábado, agosto 27, 2016

Porque hoje é Sábado

"Em Portugal tudo começou em Vilar de Mouros – no que respeita a festivais de Verão, entenda-se. Depois da primeira edição em que o rock foi personagem principal e onde o cartaz apresentava também bandas estrangeiras, em 1971, chamaram-lhe, muito apropriadamente “Woodstock português”. Dois anos depois do histórico festival americano, o Portugal do Estado Novo via uma aldeia do Alto Minho encher-se com uma geração que, livre nos comportamentos, desinibida quanto à bolorenta moralidade vigente e unida em volta da música, prenunciava o fim inevitável da ditadura.(...) "

https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/o-regresso-do-festival-onde-tudo-comecou-1742230

BlogueJornalViladosMouros1971 Imprensa da época,  visada pela censura Foto@riodasmacas

O primeiro Festival de Verão em Portugal

Decorria o ano de 1971, no Portugal cinzento da União Nacional/Acção Nacional Popular, (partido único), da Legião Portuguesa e da PIDE/DGS, quando pela persistência e teimosia de um médico, Dr.António Barge,  aconteceu um festival de Música em Vilar de Mouros- na altura em que o regime  da época considerava que mais de duas pessoas era um ajuntamento e por isso proibido...

Porque a revista Sábado publicou o relatório integral feito pela PIDE/DGS sobre o Festival Vilar de Mouros de 1971, que trouxe dois nomes internacionais, Elton John e Manfred Mann's Earth Band; e várias bandas e músicos portugueses, como os Quarteto 1111 (de José Cid), Amália Rodrigues, os Sindikato (de Jorge Palma), ou os angolanos Duo Ouro Negro - e também porque foi precisamente em Agosto de 1971, cerca de 18 mil  jovens, estiveram presentes nesse festival, que talvez tenha ajudado a alterar algumas mentalidades tacanhas, que tinham medo de "ajuntamentos" e que as pessoas tivessem a capacidade de ter opiniões e expressá-las.


vilardemouros1971Blogue

Foto @riodasmacas

 Relatório da PIDE/DGS sobre o Festival Vilar de Mouros de 1971
 
‹‹Informação nº 226-C.I.(I)
Distribuição Presidência do Conselho, Ministério do interior, Ministério da Educação Nacional
Assunto: Festival de música “Pop” em Vilar de Mouros
A seguir se transcreve o texto de uma informação redigida por um nosso elemento informativo que assistiu ao “festival” em questão, que teve lugar nos dias 7 e 8 do corrente, a qual se reproduz na íntegra, para não alterar os detalhes que foram alvo do seu espírito de observação:
“Dias antes do festival, foram distribuídos, nas estradas do País e nas estradas espanholas de passagem de França para Portugal, panfletos pedindo aos automobilistas que dessem boleias aos indivíduos que iam ver o festival.
No 1º dia, o espectáculo começou às 18h00 e prolongou-se até às 4 da manhã.
Ao anoitecer, o organizador, um tal Barge, anunciou que tinham sido vendidos 20 mil bilhetes (a 50$00 cada).
Esperavam vender 50 mil bilhetes para cobrir as despesas, que seriam aproximadamente a 2.500 contos.
Diziam que tiveram de mandar vir o conjunto Manfred Mann de Inglaterra, mas parece que estava no Algarve, e por isso, a despesa com eles não foi tão grande como parecia.
Um dos cantores, Elton John, causou desde o começo má impressão, com os seus modos soberbos e as suas exigências: carro de luxo para as deslocações, quartos de luxo para os acompanhantes e guarda-costas, etc.
O recinto do festival era uma clareira cercada de eucaliptos, com um taipal à volta e uma grade de arame do lado do ribeiro.
Na noite de 7 estavam muitos milhares de pessoas e muita gente dormiu ali mesmo, embrulhada em cobertores e na maior promiscuidade.
Entre outros havia:
crianças de olhar parado indiferentes a tudo
grupos de homens, de mão na mão, a dançar de roda
um rapaz deitado, com as calças abaixadas no trazeiro
um sujeito tão drogado que teve de ser levado em braços, com rigidez nos músculos
relações sexuais entre 2 pares, todos debaixo do mesmo cobertor na zona mais iluminada
sujeitos que corriam aos gritos para todos os lados
bichas enormes a comprar laranjadas e esperando a vez nas retretes (havia 7 ou 8 provisórias) mas apesar disso, houve quem se aliviasse no recinto do espectáculo.
porcaria de todo o género no chão (restos de comida, lama, urina) e pessoas deitadas nas proximidades
Viam-se algumas bandeiras. Uma vermelha com uma mão amarela aberta no meio (um dos símbolos usados na América pelos anarquistas); outra branca, com a inscrição “somos do Porto” com raios a vermelho e uma estrela preta.
A população da aldeia, e de toda a região, até Viana do Castelo, a uns 30 km de distância, estava revoltada contra os “cabeludos” e alguns até gritavam de longe ao passar “vai trabalhar”. Foram vistos alguns a comer com as mãos e a limparem os dedos à cabeleira.
Viam-se cenas indecentes na via pública, atrás dos arbustos e à beira da estrada.
Em Viana do Castelo dizia-se que os “hippies” tinham comprado agulhas e seringas nas farmácias da cidade.
Havia muitos estudantes de Coimbra, e outros que talvez fossem de Lisboa ou do Porto. Alguns passaram a noite em Viana do Castelo em pensões, e viam-se alguns de muito mau aspecto, parece que vindos de Lisboa, que ficaram numa pensão.
Houve gritos de Angola é... (qualquer coisa) durante a actuação do conjunto Manfred Mann (de que faz parte um comunista declarado, crê-se que chamado Hugg).
Fora do recinto, junto do rio e de uma capela, havia muitas tendas montadas e gente a dormir encostada a árvores ou muros e embrulhada em cobertores.
Houve grande confusão junto às portas de entrada.
Havia quatro bilheteiras em funcionamento permanente e muito trânsito.
Toda aquela multidão de famintos, sem recursos para adquirir géneros alimenticios indispensáveis, como se de uma praga de gafanhotos se tratasse, se lançou sobre as hortas próximas colhendo batatas e outros produtos hortícolas, causando assim, grandes contrariedades aos seus proprietários, muitos deles de débeis recursos económicos.
26-8-71››
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Foto e relatório da PIDE/DGS retirado  daqui "Requiem para um Festival
Seis dias de lição a reter. A Música viveu entre mortos, porque poucos foram os que a viveram. Vilar de Mouros morreu e com ele a esperança de poder viver o nosso tempo..."
Jornal "Disco Música &  Moda" nº14 de 15 de Agosto de 1971
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*Foto inédita  do palco de Vilar de Mouros 1971 «PoP Five Music Incorporated(?)»

"O desaire financeiro parece inevitável
Madrugada alta, conclui-se a maratona de música moderna. No próximo fim-de-semana. a fechar o festival, estarão, Amália e Ouro Negro.
Será assim , então a altura de fazer contas. O desaire financeiro parece  tão inevitável como comprometido o futuro do festival. Pelo menos é essa a opinião de amigos chegados da familia Barge.
E, se assim for, é pena.  Porque a teimosia o sonho com algo de quixotesco de um homem permitiram, em Vilar de Mouros, provar muita coisa importante. Em dois fins-de-semana, uma aldeia pitoresca e pobre. adormecida à beira do Coura, transformou-se em símbolo. Não o esquecerá quem o viveu: os jovens que , já ontem, noite adiante, partiam,e a aldeia que voltará à enxada e ao arado."
"Diário Popular" de 9 de Agosto de 1971
vilardeMourosblog.jpg
Foto publicada no Jornal de Notícias em Agosto de 1971

*Notas adicionais:
Conjuntos musicais que estiveram presentes, além de Elton John e Manfred Mann:
-"1111" com José Cid, Moniz Pereira, Tó Zé Brito e Michel
-"Chinchilas" com Felipe Mendes
-"Pop Five Music Incorporated" com Miguel Graça Moura
-"Psico"
-"Sindicato"
-"Bridge"
-"Pentágono"
-"Objectivo" com  Zé Nabo (baixo) que segundo o critico musical do jornal "Disco Música &  Moda" de Agosto de 1971, regista  "Uma referência para o Zé Nabo, que Manfred Mann considerou ser sensacional e que deu show".

Post relacionado sobre o Festival de 1971 de Vilar dos Mouros:
http://riodasmacas.blogspot.pt/2013/08/porque-hoje-e-sabado.html

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