domingo, fevereiro 17, 2013

Dr. António Brandão de Vasconcelos

Photobucket Com  a esperada aquiescência de Cortez Fernandes, tomamos a liberdade de transcrever, pelo seu interesse e significado histórico, um post publicado no blogue, "Tudo de Novo a Ocidente":

UM SENADOR SINTRENSE

Médico e agricultor, dirigente associativo e politico o Dr.António Brandão de Vasconcelos, nasceu na Beira Alta em 1866, falecendo tragicamente no seu palacete de Colares no dia 14 de Janeiro de 1934. Com grande prestígio local e nacional, fundador da Adega Regional, e Sindicato Agrícola colarenses, não admira que o seu funeral tenha sido acompanhado por milhares de pessoas, a pé até Colares, donde partiu um extenso cortejo automóvel em direcção ao cemitério dos prazeres em Lisboa onde está sepultado.
Brandão de Vasconcelos fez parte da Assembleia Constituinte de 1911, e posterirmente membro do Senado da República. Desiludido com o evoluir da situação política, renunciou ao mandato de Senador por carta enviada ao Presidente do mesmo, cujo teor é um testemunho notável, demonstrativo em parte, do seu carácter. Lido na sessão de 5 de Janeiro de 1916, deixamos aqui o seu conteúdo como preito a tão insigne Sintrense:
 
"Exmº Senhor Presidente do Senado. Nas mãos de V.Exª venho depor a minha renúncia a Congressista.
No início da passada sessão ordinária perante a dificuldade de conciliar os afazeres profissionais, e de lavrador em Colares, região de monocultura e que temerosa crise atravessa, com as funções legislativas, quis abandonar o Parlamento. Tendo porém surgido o conflito com o senado fiquei a acompanhar os meus colegas na reacção contra uma violência que me revoltava e que traduzia o nenhum respeito, que certos políticos tinham pela lei, pelo espírito e letra da Constituição, tentando transformar arbitrariamente e por meras conveniências partidárias o sistema bi-camaral em uni-camaral.
Agora já em um periodo execepcional de legislatura prorrogada resolvi retirar-me, lamentando a solução que teve a crise ministerial em que numa ocasião tão grave da vida portuguesa se constitue um ministério que em parte representa um desafio ao resto da nação que não comunga nas ideias Democráticas*, como se todo o País não estivesse interessado na momentosa questão da guerra europeia, como se não fosse todo ele que tem de pagar os enormes encargos que caíram e continuarão a pesar sobre as finanças portuguesas, para fazer face aos quais se vai lançar mão do agravamento da contribuição predial com a sua base iníqua de incidência cujas desigualdades a REPUBLICA TEM VINDO AGRAVAR.
Há muito que tenho a opinião de que a monarquia caíra muito pelos seus erros, mas também por falta de respeito por conveniências sociais. Infelizmente republicano antigo e como tal continuando a ser, vejo o mal não só deste ou daquele partido, deste ou daquele regime, é orgânico, é nacional.
Sem paixões partidárias, já velho para continuar na luta em vez de fazer como os meus colegas que não comparecem à sessão do Senado, resolvo retirar-me por uma vez, fazendo a toda esta câmara, a que vossa Ex.ª tão dignamente preside e onde não sofri o minimo agravo pessoal as minhas respeitosas saudações e despedidas
Saude e Fraternidade, Colares, 15 de Dezembro de 1915"
 
Quando terminou a leitura desta carta diversos senadores pretenderam intervir para manifestarem a sua opinião; o ambiente acalorou-se tendo o Presidente cortado qualquer possibilidade de intervenção, afirmando, por se tratar duma carta, o regimento não permitia discussão.
O Dr.Brandão de Vasconcelos algumas ocasiões poderá, talvez, ter assumido posições menos correctas, no entanto, esta carta deveria servir de motivo de reflexão. Nos nossos dias os Parlamentares raramente renunciam, quando o fazem evocam motivos pessoais, e não discordância como o ilustre Senador assumiu.
*"democrático" foi a designação adoptada pelo PRP,Partido Republicano Português depois de 1910, face as diversas cisões verificadas no seu seio.

2 comentários:

Graça Sampaio disse...

Outros tempos...

pedro macieira disse...

Graça,
Outros tempos em que seria mais dificil ser coerente e ter alguma ética na zona dos poderes.Hoje assistimos, a carreirismo, amiguismo, o contrariar as promessas antes feitas por aqueles que eleitos com os votos do povo, esquecem e chegam mesmo a odiar o povo que os elegeram.
Abraço