sexta-feira, março 25, 2011

O Externato de Santa Maria

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Casa dos Penedos

Publicamos hoje um excelente texto de Graça Sampaio, autora do blogue “picosderoseirabrava”, que faz um retrato de uma época - sendo também uma resposta a uma questão relacionada com o Externato de Santa Maria, de Sintra, colocada por uma visitante deste blogue.

A obra da Sr.ª D. Maria Eugénia Reis Ferreira

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O meu contacto com a obra desta senhora fez-se já, a título póstumo, em inícios de Outubro de 1958, tinha eu apenas dez anos, quando a minha mãe, depois de ter respondido a um anúncio, ganhou o lugar de professora primária no Externato de Santa Maria, sito na Rua Marechal Saldanha, n.º 18, em Sintra.

A dona e directora desta instituição, a Senhora D. Maria Emília Reis Ferreira, era irmã da Senhora D. Maria Eugénia (ambas filhas do Senhor Carlos Ferreira, dono da Casa dos Penedos), recentemente falecida, sem descendência, e terá pedido, à hora da morte, à irmã que tomasse conta da sua obra, promessa que a senhora D. Emília cumpriu sempre com todo o carinho e denodo, a suas inteiras expensas.

A população alvo eram crianças do sexo feminino, nomeadamente de famílias pobres, residentes na Freguesia de São Martinho, em Sintra, que não possuía senão uma escola primária destinada a rapazes. De notar que, à época, as escolas primárias obedeciam à lógica da separação dos sexos.

Para além do ensino primário absolutamente gratuito, as meninas almoçavam na escola que lhes oferecia sopa, pão e fruta que vinha das quintas da directora da escola. Depois de fazerem a 4ª classe (de referir que naquele tempo o ensino não era obrigatório e a escolaridade básica para as raparigas era o exame da 3ª classe, ficando o exame da 4ª classe como escolaridade básica dos rapazes) as meninas podiam continuar a frequentar a escola onde funcionava uma Casa de Trabalho na qual elas aprendiam costura e lavores. Durante muitos anos essa Casa de Trabalho foi dirigida pela Senhora D. Madalena.

Para além destas benesses, a escola oferecia a Sopa dos Pobres – todos os dias da semana um máximo de vinte pobres certificados com Atestado de Pobreza passado pela Junta de Freguesia (ou Regedor, já não me lembro bem) recebiam uma panela de boa sopa e um ou dois pães de segunda, conforme o agregado familiar, e fruta, quando havia. Este serviço acabou por se extinguir ainda antes do 25 de Abril.
Tudo, absolutamente tudo, incluindo os ordenados das professoras e das cozinheiras, era pago pela irmã da Sr.ª D. Maria Eugénia. A minha mãe, a D. Lina como era conhecida, passou a ser aquilo a que actualmente se chama a directora pedagógica. Esteve em funções até aos anos 80, altura em que a escola fechou mercê das alterações socio-políticas do país e teve sempre a máxima confiança da dona da instituição. Foi a primeira (e última) professora que se manteve segura no cargo e foi com ela, posso dizê-lo sem qualquer laivo de imodéstia, que a escola evoluiu e se tornou visível. Numa época em que nem sequer se ouvia falar em visitas de estudo, em inícios de 60, a minha mãe, sempre com o suporte humano e material da Sr.ª D. Maria Emília, levou uma camioneta (do Barraqueiro, ainda me lembro) de passeio a Fátima e à Nazaré. Muitas delas nunca tinham saído de Sintra, nunca tinha visto o mar. Foi tudo pago, incluindo lanches e gelado (!) pela Directora da escola. Passou a realizar-se uma festa anual organizada pela minha mãe, com teatrinhos, bailados e récita de poemas pelas meninas, na qual estava presente e era homenageada a Directora e para a qual eram convidados os pais das alunas. Tudo era feito na escola: a escolha e o ensaio das peças de teatro bem como a confecção dos fatos e dos cenários – isto nos anos 60 era muito inovador. Claro que contava-se sempre com o enorme apoio humano, cultural e financeiro da Directora.

Nos anos 70, com a menor procura dos serviços da Casa de Trabalho, a escola passou a receber crianças com 5 e 4 anos, numa espécie de pré-escolar. Entraram novas vigilantes e, naturalmente, às custas da Directora. De referir que a minha mãe e as restantes senhoras que trabalhavam na escola, ao contrário do que acontecia no ensino oficial, recebiam 13 meses por ano, enquanto no oficial recebiam 10.

Depois do 25 de Abril, as condições alteraram-se. As obras de caridade passaram a ser mal vistas, os pais tornaram-se por de mais reivindicativos – não vejam nisto qualquer tipo de crítica da minha parte em relação à Revolução – a Directora estava um pouco cansada e desiludida e a escola acabou por fechar em meados dos anos 80.

O edifício em que a escola funcionava é um casarão contíguo à Casa dos Penedos também pertencente ao pai das Senhoras D. Maria Eugénia e Maria Emília, parte do qual, a ala esquerda, era reservado à casa da professora – a minha mãe – e outra parte, a ala direita, era reservada aos caseiros da Casa dos Penedos que se mudavam para lá no Verão, quando os senhoras vinham veranear para a Casa dos Penedos. A parte central era reservada para a escola: uma enorme sala de aulas, um refeitório de igual tamanho, a enorme cozinha com chão de lajes e fogão a lenha, lá em cima, na ala direita, a Casa de Trabalho e a Capela, onde diariamente se rezava o terço... O enorme campo de ténis da Casa dos Penedos era o recreio das alunas da escola.

Desde que a escola fechou e que a minha mãe não acedeu a ficar lá em jeito de caseira, o edifício foi abandonado e, como sabem melhor do que eu, completamente arruinado. A Senhora D. Maria Emília faleceu há anos também sem descendência e tudo aquilo pertence agora aos sobrinhos, oito, se bem me lembro, filhos de outra irmã sua.

Graça Sampaio

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"O edifício em que a escola funcionava é um casarão contíguo à Casa dos Penedos"

Créditos:
Sinal de trânsito adaptado daqui
Foto do Externato da autoria de Emilia Reis

13 comentários:

viajante disse...

Brilhante, Pedro.
A nossa memória colectiva tão bem retratada.

Fatyly disse...

Desconhecia por completo e adorei ter ficado a saber mais das vossas memórias (passam também a ser minhas) já que as minhas verdadeiras a guerra encarregou-se de as pulverizar.

Parabéns pelo post e bom fim de semana

Anónimo disse...

Eu andei nessa escola e a D. Lina foi minha professora. Era uma Senhora. A sua casa ficava no lado esquerdo, após subir-se a escadaria interior, para depois dar entrada no lado direito a uma grande sala de aula. Tínhamos uma vista preveligiada sobre o palácio. A Prof. D. Luísa (mais nova), também foi minha professora. Infelizmente já faleceu. Havia também a D. Teresa de São Pedro de Sintra.
Tenho 39 anos e tendo em conta o texto, eu fui daquelas que saí na década de 80, na 3ª classe. Aí a escola acabou mesmo. Tenho muita pena. Gostaria de entrar um dia lá dentro, sempre gostei daquela grande casa.
Fiquei muito contente por este texto e ainda mais por quem o escreve.
Margarida

carol disse...

Muito obrigada, Pedro, por ter publicado o meu texto. E agradeço também aos comentadores acima as palavras simpáticas. À Margarida, que não conheci, agradeço as simpáticas palavras sobre a minha Mãe.

As portas e janelas que se vêem na foto correspondem aos aposentos dos caseiros da Casa dos Penedos que lá viviam no Verão. Os últimos foram os que sempre conheci e que já lá estavam quando fui viver para Sintra em 1958 - eram o Sr. Armando e a Sr.ª Angelina. Pode ser que alguém ainda se lembre deles.

Anónimo disse...

Com o depoimento de "Carol" e o comentário da Margarida, assentes nas suas próprias memórias,ficámos a conhecer mais um bocadinho da história de Sintra e, também, da história da Casa dos Penedos.
Eles foram por isso preciosos.
Muito obrigada.
ereis

Caínhas disse...

Só a minha querida amiga, brilhante professora tal qual a mãe, poderia descrever tão bem este assunto, já que o viveu na primeira pessoa.
Eu faço a minha penitência por ignorar em absoluto toda este manancial de bem fazer. Sabia que não era uma escola igual às outras.
Os nossos autarcas querem comprar quintas a torto e a direito, não se sabe bem para quê, porque não pensar neste património genuinamente sintrense, com História, requalificá-lo e dar-lhe vida adequada e merecida.

carol disse...

Obrigada, querido Caínhas, pelas tuas palavras sempre tão queridas! És um amor!

Anónimo disse...

Boa noite, andei nesta escola, a D. Lina foi minha professora da 3ª e 4ª classe, na infantil (assim se chamava antes dos 6 anos de idade) a minha professora se ñ me falha a memória foi a D. Alda e na 1ª e 2ª classe foi a D. Isabel. Lembro-me em especial do recreio enorme, de jogar ao mata e ao avião,das festas de final de ano e no Natal (teatro e ballêt) ainda tenho algumas fotografias, recordo também quando a diretora (que morava ao lado)visitava a escola e tinhamos de cantar o hino nacional.(hoje os jovens nem sabem o hino)usavamos uma bata cor de rosa e um laçinho azul escuro de veludo e uma gola branca apertada que era desconfortável para brincarmos. Lembro-me também do meu exame da 4ª classe que foi na escola dos rapazes em S. Pedro de Sintra. Saí no ano de 1972 quase a fazer os 10 anos. Boas recordações.
Lucy

Isabel Santos disse...

Li, reli e emocionei-me.
Também eu andei nesta escola (entre 1967 e 1972) na altura só se podia entrar com 7 anos e não era permitido usar calças. Foi por muito pouco tempo,pois logo logo isso acabou.
Entrei diretamente para a 1ª classe,a professora era a Mª de Jesus e mais tarde foi as irmã da mesma - Isabel. A prof. da 3º e 4º foi a D. Lina.
Lembro-me bem da Diretora - a D. Maria Emilia - e do casaco de pele de leopardo que ela usava. Cantavamos o hino nacional e um hino proprio para a diretora.
Lembro-me da Gracinha -a filha da D. Lina - e de um dia ter gozado com o meu desenho de menina por eu ter desenhado uma jarra em cima de um roupeiro :-)
Lembro-me da cozinheira - a D. Dionisia - e só gostava das sopas dela, ao ponto da minha mãe ir perguntar-lhe como as fazia.
Lembro-me do velho fogão a lenha que estava todo o dia aceso e onde eram aquecidas as nossas marmitas à hora do almoço.
Lembro-meda casa da lenha, escura como breu, com uma escada que nos levava ao recreio.
Lembro-me dos teatrinhos onde eu fiz de menina orfã ede mosqueteiro e ainda outros papeis.
Lembro-me de nos ajoelharmos nas gretas do soalho de madeira, enquanto rezavamos e quando nos levantavamos tinhamos a marca nos joelhos e nós adoravamos.
Lembro-me...lembro-me... lembro-me.
Que bom ter recordado!

Graça Sampaio disse...

Isabel Santos, peço-lhe desculpa por ter gozado com o seu desenho... e logo eu que não tenho jeito nenhum para desenho... Gostei das suas lembranças. Como eu gostava também da Menina Dionísia que era um doce de senhora...

Beijinhos

Isabel Santos disse...

Gracinha (era assim que a conhecíamos na altura), não tem de pedir desculpa por causa do desenho, embora isso tivesse ficado para sempre marcado na minha cabeça de menina. De facto, uma jarra em cima de um roupeiro não é precisamente o mais correto mas eu lá achei que ficava bem (Ah! Ah!).
Coisas de menina, da minha parte; coisas de adolescente, da sua parte.
Está mais que perdoada!
Beijinhos
Isabel Jordão

Anónimo disse...

Descobri este blog, por acaso,
3 anos depois da sua publicação.
Emocionei-me. Tantas recordações tenho desta casa, da D Lina, da Escola.
Nunca fui aluna lá mas era como se fosse a minha escola. Ia para o "ténis" brincar no Verão. Passei lá alguns verões de 70, quando a escola estava de férias!
Acompanhei várias vezes a minha madrinha (Mª Emilia) e a minha mãe quando se deslocavam a Sintra para tratar dos assuntos da escola.
Que bem falou da minha madrinha! Obrigada! Que bom é escutar falar tão bem e reconhecer quem tão bem realizou.
A Angelina e o Armando (caseiros), com brinquei tanto na minha infância, foram viver o final da sua vida para o Norte e lá morreram.
A minha madrinha, a minha mãe, a D Lina também já não vivem, mas o bem que fizeram permanece!
E nós portadores da sua herança, e das belas recordações cheias de vida que nos deixaram somos chamadas a perpetuar, pelas nossas ações esse mesmo bem que recebemos!
Bem haja pelo seu testemunho...
Mafalda leitão

Graça Sampaio disse...

Olá, Mafaldinha! Aos anos que não me lembrava de si! Gostei tanto do seu testemunho!
Lembro-me de si pequenina, lembro-me bem da sua mãe, que infelizmente já não está entre nós e eu já sabia, do seu pai - a quem a Srª D. Maria Emília chamava de Jica - e dos seus queridos avós, especialmente do Senhor José, que era um querido e um cozinheiro de primeira.
Também sabia que o Sr. Armando e a Srª Angelina tinham ido para o Minho. Ainda chegámos a visitá-los lá.

Se aqui voltar e ler estas minhas palavras, diga qualquer coisa, pro favor. O meu mail é gracaenator@gmail.com.

Beijinhos
Graça