sexta-feira, setembro 12, 2014

Notas sobre o Círio de N.Senhora do Cabo Espichel

 S.Pedro de Penaferrim, recebe 25 anos depois o Círio de N. Senhora do Cabo Espichel,  a partir de sábado  dia 13 até 31 de Setembro, a  esse propósito algumas notas sobre este secular evento:

"O Domingo Ilustrado" nº141 de 25 de Setembro de 1927 (Círio em Sintra)


O Círio de Nossa Senhora do Cabo Espichel que percorre várias paróquias sintrenses é uma tradição secular,segundo Manuel J.Gandra” a romaria popular e a peregrinação religiosa dos Círios constituir-se-iam como última reminiscência e mais longínqua memória do acontecimento geográfico-natural que tradicionalmente se designa pelo dito afundamento do continente Atlante ou da Atlântica..”

Neste sentido, e segundo Manuel J.Gandra os “Círios do cabo”, como o “devotado por Sintra, com o nome de Nossa senhora do Cabo Espichel, partilhado desde o século XV pelas populações costeiras entre o Cabo Espichel e o Cabo da Roca, estatuir-se-iam como memória religiosa daquele trágico acontecimento, não do afundamento de um continente, como até há pouco se pressupunha quando se falava da Atlântica, mas da submersão de centenas de quilómetros da zona costeira europeia por uma onda gigantesca, igualmente com profundas consequência no Mediterraneo.Há cerca de10000 anos, nível do Oceano Atlântico, encontrar-se-ia a uma quota “inferior ao actual de mais de uma centena de metros”,permitindo a passagem, ilha a ilha entre a Europa eo continente americano.(...)”

Este cenário terá sido alterado, segundo o autor por um impacto de um cometa, em pleno atlântico, “o que terá causado um aquecimento global do planeta, provocando uma deglaciação abrupta e um súbito, e inesperado e devastador dilúvio, em virtude da devolução aos oceanos das águas retidas nos glaciares.”

Sintra 2010, Círio de N.Senhora do Cabo Espichel, A Berlinda da Senhora, tal como o Círio, também eram transportados respectivamente num trem adaptado, e, numa carroça puxada por um macho.

Sintra 2010, Círio de N.do Cabo Espichel

Como resultado desta alteração planetária ,”as populações sobreviventes na sua mentalidade evemerista* teriam passado a adorar, sobretudo nas zonas geográficas de cabos peninsulares, onde a terra penetra mar a dentro, tanto um conjunto de divindades maritimas, como a memória dos seus antepassados tragados pela águas.sintomáticamente, no caso do Círio de N.Senhora do Cabo Espichel, a divindade primitiva adorada (uma “Virgem Negra”, segundo Manuel Gandra) designava-se primitivamente como Nossa Senhora da Pedra da Mua, que não terá a ver com a
mula **que transportava a imagem peregrina de N.senhora mas com o étimo*** egípcio “Mu”.
Os povos da serra de Sintra (alcabideche) e da Serra da Arrábida (Caparica) ter-se-iam unido na adoração de uma entidade mítica primitiva de que, após cristianização da Península Ibérica N.Senhora do Cabo se tornou descendente.

 
Vitor Manuel Adrião, considera que “Círio Votivo ou Giro seria já cardápio do Culturísmo do Saloio moçárabe ao tempo da Ocupação árabe, cuja lei era permissiva e não repressiva da Fé cristã”.

 
O “giro” do Círio de N.Senhora do Cabo espichel iniciado em 1430, protegido pelos reis de Portugal desde 1849.
Sintra 2010, Círio de N.Senhora do Cabo Espichel

. Teresa Marques Alves ,considera que “Um Círio é por definição uma manifestação religiosa de forte cariz popular que se traduz em romagens cíclicas, de uma ou mais povoações , a santuários , passando por vários lugares em cortejo.(...) Círios são manifestações essencialmente estremenhas: temos como exemplos o Cirio de Nossa Senhora do Cabo Espichel, o de Nossa Senhora da Nazaré, Nossa Senhora da Atalaia, Nossa Senhora da Guia, Nossa Senhora da Peninha e o Círio de Nossa Senhora da Penha de França.


*evemerismo-Sistema filosófico dos que sustentam que os deuses foram personagens humanas, divinizadas pelos homens .

** Versão tradicional “No século XIII, o local foi muito popular junto dos peregrinos, depois de um homem ter tido uma visão de Nossa Senhora que surgia do mar numa mula. A lenda diz que as pegadas da mula podem ser vistas nas rochas. Em homenagem à Virgem, foi edificada, nesse mesmo local, uma ermida a que chamaram “Pedra Mua”.
Explicação da origem da lenda segundo Vitor Manuel Adrião,” , a existência de diversas pistas de dinossáurios, com maior realce nas escarpas da enseada da praia dos Lagosteiros, pretexto para as pegadas deixadas na Pedra de Mua pela burrinha (mula ou muar) que transportou a Senhora encosta acima,10 transpondo-se assim o óbvio geológico para a maior valia da aparição sobrenatural da Virgem, o que recata à finalidade consagratória desse mais um finis-terrae ou lugar sagrado”

***étimo-vocábulo que é de origem imediata de outro

Fontes :
-“Jornal de Sintra” 7 de Julho 2006-Círio do Litoral Colarense , Graça Pedroso
-“Jornal da Região” de 13 Fevereiro de 2002- O Círio de Nossa Srª da Praia, Teresa Marques Alves
-“Jornal de Sintra” 19 de Maio 2006-07-18- O Círio de N.Srª do cabo Filomena Oliveira/Luis Martins
-“ Diário Noticias “7 de Abril 1990 - Sintra Morada de Deuses , Antónia de Sousa /.M.J.Gandra
-O Giro do Círio dos Saloios , Vitor Manuel Adrião para ver texto integral pressionar aqui

Posts relacionados:

Sobre o O Círio de Nossa Senhora da Praia que nasceu em 1897,por iniciativa de Alfredo Keil e foi efectuado pela última vez em 1944, tinha o seu inicio na Vila de Colares para as Azenhas do Mar:
http://riodasmacas.blogspot.pt/2006/07/crios.html

http://riodasmacas.blogspot.pt/2010/09/festas-de-n-sr-do-cabo-espichel-em.html

http://riodasmacas.blogspot.pt/2010/09/festas-de-n-sr-do-cabo-espichel-em_20.html


3 comentários:

Graça Sampaio disse...

Muito bom!

Carlos José dos Santos disse...

Pedro sou fã do blogue, tenho razões para continuar a ser, porque ele é uma fonte de sabedoria.
Gosto destas coisas.
É impressionante para mim que o óbvio, ainda se coloque em dúvida, hoje por causa de interesses meramente economicistas, uma coisa que já há 10.000 anos, era/foi uma realidade. O alagamento dos continentes, conforme está escrito no texto do post.
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"trágico acontecimento, não do afundamento de um continente, como até há pouco se pressupunha quando se falava da Atlântica, mas da submersão de centenas de quilómetros da zona costeira europeia por uma onda gigantesca, igualmente com profundas consequência no Mediterraneo.Há cerca de10000 anos, nível do Oceano Atlântico, encontrar-se-ia a uma quota “inferior ao actual de mais de uma centena de metros”,permitindo a passagem, ilha a ilha entre a Europa e o continente americano.(...)”
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Então? continuemos a "derreter" o planeta, ele se encarregará de nos dar a lição!
Quanto á história do Círio, adorei, algumas coisas já sabia, mas dá sempre para aprender algo mais.

pedro macieira disse...

Graça, Caínhas,
Obrigado pelos comentários -curiosamente dois preciosos colaboradores do "Rio das Maçãs".
Abraços